sábado, 10 de setembro de 2011


Fragmento do “Manifesto das Sete Artes”


Ricciotto Canudo




I


A teoria das sete artes, tal qual, pela primeira vez, eu pude expor no Quartier Latin, há três anos, ganhou o terreno de todas as lógicas e se propaga no mundo inteiro. Na confusão total dos gêneros e das idéias, ela trouxe uma precisão de fonte reencontrada. Eu não me orgulhava dessa descoberta, toda teoria comportando o achado do princípio que a rege. Eu constato nela a influência, assim como, nela a afirmando, eu constatava a necessidade.


Se os inúmeros e nefastos negociantes do cinema acreditavam se apropriar da palavra “Sétima Arte”, que reerguia imediatamente o sentido de sua indústria e de seu comércio, eles não aceitaram a responsabilidade imposta pela palavra Arte. Sua indústria é a mesma, mais ou menos bem organizada no ponto de vista técnico; seu comércio é alternadamente emergente ou medíocre, segundo o aumento ou a baixa da emotividade universal. (...) Mas essa arte de total síntese que é o Cinema, esse recém-nascido fabuloso da Máquina e do Sentimento, começa a cessar seus balbucios, entrando na infância. Sua adolescência virá, logo mais, captar sua inteligência e multiplicar seus sonhos; nós demandamos uma aceleração de seu desabrochar, uma rapidez na chegada da sua juventude. Nós precisamos do Cinema para criar a arte total para a qual todas as outras, desde sempre, convergiram.


II


E eis onde será preciso uma vez mais explicar, rapidamente, a teoria que os meios esclarecidos estudam... sob o nome de “Teoria das sete artes”. A fonte reencontrada nos a revelou na sua limpidez. Nós vemos aí que duas artes, em realidade, surgiram do cérebro humano para lhe permitir fixar toda a fugacidade da vida, lutando assim contra a morte dos aspectos e das formas e enriquecendo da experiência estética as gerações seguintes. Tratava-se, no alvorecer da humanidade, de aperfeiçoar a vida a elevando fora das realidades efêmeras, nela afirmando a eternidade das coisas cujos homens se emocionavam. Queríamos criar lares de emoção capazes de propagar em todas as gerações o que um filósofo italiano chamou “o esquecimento estético”, quer dizer, a profunda satisfação de uma vida superior à vida, de uma personalidade múltipla que cada um pode se dar fora e dentro de sua própria personalidade.


Na minha Psicologia Musical das Civilizações (1908), eu já notava que a Arquitetura e a Música tinham formulado imediatamente essa necessidade inexorável do homem primitivo, que buscava “fixar” todas as potencialidades plásticas e rítmicas de sua existência sentimental. Fabricando sua primeira cabana, e dançando sua primeira dança com o simples acompanhamento da voz que cadenciavam os batimentos dos pés sobre o solo, ele havia encontrado a Arquitetura e a Música. Em seguida, ele embelezava a primeira das figurações dos seres e das coisas dos quais ele queria perpetuar a lembrança, ao mesmo tempo ele acrescentava à Dança a expressão articulada de seus sentimentos: a fala. De tal modo, ele havia inventado a Escultura, a Pintura e a Poesia; ele havia acurado seu sonho de perpetuidade no espaço e no tempo. O Ângulo estético se colocou desde então diante de seu espírito.
(...)


III


(...)
Ora, ele, Nosso tempo, incomparável de vigor interior e exterior, de criação nova do mundo interior e exterior, de produção de potencialidades até nós insuspeitas: interiores e exteriores, físicas e religiosas -, Nosso tempo sintetizou, através de um élan divino, as múltiplas experiências do homem. Nós somamos todos os elementos da vida prática e da vida sentimental, nós casamos a Ciência e o ideal da Arte, os aplicando numa e noutra para captar e fixar os ritmos da luz. É o Cinema.
A Sétima Arte concilia assim todas as outras. Telas em movimento. Arte Plástica se desenvolvendo segundo as normas de Arte Rítmica.


Créditos: Cinecittà

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